jueves, 27 de julio de 2017

Magdalena sin fronteras. Testimonio de Daniele Santana, Cuba 2017



En enero de este año, 2017, conocí a Daniele en medio de la fiesta que fue el Encuentro Knots/Nudos/Nos, encuentro de teatro de grupo, en Mogi das Cruces, cerca de Suzano, Sao Paulo. Yo había ido con mi grupo Camino Teatro. Nos cruzamos recién los últimos días del Festival porque ella había estado este mismo enero en el Magdalena sin fronteras, Cuba. La vi en Curra-temperos sobre Medéia, junto al maravilloso grupo Contadores de mentira. Nos reconocimos. Nos sentimos unidas además por otra hermandad. 
Va foto de ese encuentro (y foto del transporte de los Contadores de mentira: el Frida Carro!) . LD

















The Magdalena Project: Uma afirmação de voz e de presença.


Daniele Santana 
Atriz e Gestora no grupo Contadores de Mentira – Suzano – Brasil

Em Cuba, em janeiro deste ano o tempo se inflou.  Durante 10 dias, mulheres de diversas partes do mundo se aventuraram no mergulho de pensar e viver Teatro juntas.  Não bastasse toda a energia que exala desse país, ainda encontrar a força dessas mulheres é como se abastecer de uma potência física e subjetiva.
A 5º edição do “Magdalenas sin fronteras” teve o tema: vidas, grupo, teatro, realidade. Foi realizada em Santa Clara, idealizada e dirigida por Roxana Pineda, uma mulher que inspira com sua coragem convicção.
Essa rede é mais que um encontro de formação e aprimoramento artístico/filosófico/técnico, é um terreno de afeto e nutrição. A cada palavra trocada, a cada dia de espetáculo ou de aula o que se via era uma busca por um teatro cada vez mais humano, sensível às transformações que o mundo e as pessoas têm vivido.
É inevitável, ao adentrar nesta imersão, a vontade de atirar-se, o desejo de pular para um novo lugar, de percorrer por outras estradas, de encontrar consigo mesma num lugar tão íntimo quanto desconhecido.
Ouvir mulheres de realidades tão distintas, de caminhos tão variados e ao mesmo tempo se sentir tão familiar carrega um misto de espanto e deleite, como se há tempos nos guiássemos de modo intuitivo para um mesmo lugar, ou por um mesmo objetivo. Objetivo este que nem sempre é claro ou definitivo, que é passível de dúvidas e de transformações, mas que se mantém firme em sua essência.
Esta foi a primeira vez que estive no Magdalenas, mas indiretamente estou ligada à rede há alguns anos e se pensar em um carácter efêmero penso que sempre estive. Me pergunto em que plano de fato os sentimentos que envolvem essa rede me encontrou. Quando penso nas lutas que nós mulheres travamos ao longo do nosso ofício e também da nossa existência começo a crer que essa ligação deve mesmo ser ancestral.
Em muitas partes do mundo mulheres têm se unido para discutir direitos sociais e históricos, direito básicos como o de escolher sua profissão, sua sexualidade, seu caminho. Batalhando por direitos óbvios como o direito a seu próprio corpo, a dizer o que pensa e ser respeitada. Acredito que redes e encontros como esses nos encorajam e embasam a falarmos em primeira pessoa, a nos colocarmos no centro da discussão como coletivo e como indivíduo. A termos em nossas mãos o controle sobre nossas escolhas e decisões. Por anos nossas vozes têm sido sequestradas por uma sociedade patriarcal, há séculos somos assediadas em todos os níveis, e o teatro não está à margem deste absurdo.
Esses dias de experiência em Cuba e no Magdalenas foram para mim, e credito que para todas as participantes, um respiro... E ao mesmo tempo uma ebulição. Todos os dias éramos convidadas a pensar em teatro, em grupo, em vida, em sociedade e em si. A refletir sobre o equilíbrio entre a força e a fragilidade, sobre o ofício e sobre os rastros que temos deixado.
Patricia Ariza disse num dos dias que o “projeto Magdalena” é para as mulheres como ter um “quarto próprio”. Essa reflexão foi lançada e a tomei quase como um conselho, apenas tenho pensado noutro ambiente: um jardim; me atrai mais a ideia de um lugar sem paredes.
Concordo com a ideia de que é preciso haver “jardins próprios” dentro de um grupo. Para cada integrante, penso. De maneira que esses espaços não sejam locais de isolamento ou de fuga, mas de plantações pessoais, um solo de estudos, investigações e colheitas particulares. E seguramente seus frutos serão compartidos com todos.
Entender esse “jardim próprio” dentro do grupo pode ser confuso, já que não se trata da banalidade de egoísmos ou vaidades. Há de se refletir sobre sua importância como uma fresta de organização e fortalecimento do “eu” em paralelo ao “todo”. Há grupos de teatro porque há a percepção de que juntos somos mais fortes, de que é um espaço onde pessoas diferentes se unem em busca de percorrer ou traçar novos caminhos, entendendo que juntos podemos ir mais adiante.
O “Magdalena Project” em sua base é um encontro afetuoso em sua essência, político em sua existência e inspirador em seu conceito. Um encontro com tantas mulheres, de tantas partes do mundo, que trazem consigo uma enorme força e história. Mulheres que são em seus territórios polos de resistência, que têm em seus corpos as marcas de uma vida dedicada a este ofício, e que com valentia contestam o mundo opressor em que vivemos.
Poder viver momentos como esses é mais que uma experiência teatral, é uma oportunidade de assumir em si esta chama de coragem, de assumir a responsabilidade de seguir em frente, de não se deixar sequestrar pela vaidade ou pela inércia. De preservar seu jardim...
 É um sopro coletivo carregado de coragem de traçar um caminho próprio... Um salto para a descoberta do que vem depois... Uma afirmação de voz e de presença.