lunes, 25 de junio de 2012

CÓMO TE LA CONTARON...



Quando o “Tio Chico” me visitou pela primeira vez...

Por Luiza Bitencour

Bom... Eu tinha 10 anos, ainda gostava de brincar de bonecas, casinha, andar de patins, ir ao club todos os dias.
Eu tinha uma melhor amiga, 4 anos mais nova do que eu, o que fez minha infância se prolongar mais do que de muitas amigas minhas.
Eu já sabia o que era ser “mocinha”, pois uma prima muito próxima já era, e minha mãe me explicou que era uma fase muito importante na vida de uma menina, pois queria dizer que nosso corpo já estava se preparando pra ser mulher e já era forte para gerar um bebê.
Eu não me lembro exatamente desta  conversa, mas lembro que eu sempre soube disso. E também na escola se falava muito nas aulas e entre amigas. A gente sempre queria saber quem já era “mocinha” e se doía ou se incomodava... Era uma curiosidade comum entre as meninas.
Um final de tarde, no mês de agosto, brincava na casa dessa minha melhor amiga, não sei exatamente o que senti, mas percebi que meu corpo estava “estranho”, levantei e falei pra ela que ia pra casa e que já voltava.
Cheguei em casa e fui ao banheiro, constatei o fato: tinha me transformado em “mocinha”, tava de “Chico” como as meninas diziam.
Primeiro pensei que num podia ser verdade... Depois fiquei com raiva, tinha a impressão que ser mocinha significava não poder brincar mais como criança... e eu só tinha 10 anos.
Chamei minha mãe e ali mesmo dentro do banheiro contei pra ela, que teve uma explosão de alegria misturada com orgulho da filha que estava crescendo, e eu olhava pra ela muito mal-humorada: “eu não quer ser mocinha” eu dizia. Ela falava que era lindo, que eu devia ficar feliz, que não mudava nada, era só um sinal que eu estava crescendo.
Depois ela veio perguntar se podíamos contar pro meu pai, que era um momento importante e ele devia saber. Eu não queria!!! Sentia vergonha. Mas ela me convenceu que ele devia saber. Quando minha mãe contou ele me parabenizou por essa nova fase e eu lembro de olhar bem pra ele e dizer: “eu não to gostando disso, eu não quero ser mocinha agora, é ruim!” e ele disse brincalhão como sempre: “não se preocupe minha filha, não dura muito, daqui 60 anos você não vai mais ficar de “Chico”!”
Animador não é verdade... eu não sabia se ria ou se chorava.
Naquele dia eu não voltei pra casa da minha amiga pra brincar. Pensei a noite inteira “quem convidou esse “Tio Chico” pra chegar bem agora? Quem disse pra ela que eu queria crescer?”. No dia seguinte eu ganhei uma boneca de porcelana da minha mãe (hoje sinto que ela queria mostrar que nada mudava, que eu poderia continuar brincando de bonecas por quanto tempo eu ainda tivesse vontade, mas por uma ironia ou coincidência aquela boneca não era de brincar e sim de enfeitar meu quarto).
É claro que ainda por uns dois anos eu brinquei de boneca, de casinha, andava de patins e ia ao club. Porém no club que eu ia todos os dias, tinha 4 dias que eu não podia ir... foi no club que conheci meu primeiro amor. Foi nessa mesma época em que me apaixonei que parei de brincar e sem perceber me afastei um pouco das brincadeiras com minha melhor amiga 4 anos mais nova, que provavelmente aprendeu o que era “estar de Chico e ser mocinha” quando aconteceu comigo, porque não demorou muito pra ela me fazer as mesmas perguntas que eu fazia pras minhas primas: “dói muito ser mocinha?”