domingo, 11 de septiembre de 2011

MARISA NASPOLINI (otra invitada de Brasil)


Fronteiras abertas


Andando pelas ruas vazias de Cardiff, em uma manhã cinzenta e fria, tive um flashback inusitado e me lembrei que há exatamente 25 anos, em agosto de 1986, eu caminhava por uma rua parecida em um bairro londrino em direção ao trabalho. Na época eu estudava teatro em Paris e, enquanto aguardava o começo das aulas, fui visitar uns amigos e ganhar algum dinheiro em Londres. Arrumei trabalho como camareira em um bed & breakfast gerenciado por indianos e tínhamos conflitos diários por conta dos sotaques incompreensíveis para ambas as partes. Eu não entendia o que eles me diziam e vice-versa, mas sendo a parte mais frágil da história, eu era xingada diariamente, o que tornou aquele período uma porta de entrada um tanto traumática na minha incipiente vivência europeia.
Entre outras coisas, que não foram poucas, aprendi que minha sobrevivência nesta jornada que iniciava dependeria fundamentalmente da minha capacidade de adaptação e de tolerância com a diferença. Até porque a diferente na história era eu, “migrante” terceiro-mundista recém-chegada em um país que estava em plena turbulência: vários ataques terroristas eclodiam na França naquele período, destruindo prédios e causando pânico na população. As ordens do governo francês eram claras: rigor na emissão de vistos, lupa nas fronteiras, dificultar a vida de estrangeiros. Ser estrangeiro e, principalmente, não europeu, era sinônimo de cidadão de quinta categoria, principal suspeito, fim da linha.
Ironicamente, vinte e cinco anos depois me encontro participando da comemoração de aniversário de 25 anos do Projeto Magdalena, cuja natureza fundamentalmente multicultural me possibilita pensar sobre minha estadia no País de Gales sob uma perspectiva muito distinta. Em Cardiff, éramos mais de 100 artistas de 28 países diferentes, compartilhando experiências, metodologias e práticas de trabalho em uma perspectiva colaborativa, na qual a alteridade e o respeito à diversidade tem um espaço sagrado. Tenho a sensação de que por alguns dias vivemos em uma ilha protegida na qual a abertura das fronteiras interpessoais e interculturais era condição e consequência de nosso trabalho artístico.
Muitas coisas me vem à mente. Creio que a Rede Magdalena conseguiu, no decorrer de sua existência, sedimentar um tipo de organização que nos possibilita um “respiro” do mundo real e, talvez por isso, nos sintamos tão abastecidas, reenergizadas, estimuladas, inspiradas para tocar nosso trabalho (às vezes de forma extremamente isolada) e para continuar alimentando o crescimento da rede. A minha iniciação no universo “profissional” do teatro foi marcada por inúmeras dificuldades nas relações interculturais. É no mínimo reconfortante – eu diria que é mesmo maravilhoso – que hoje eu encontre tanto conforto e receptividade em um projeto marcado pelo diálogo entre artistas de diferentes culturas (e nações e línguas) que propõe uma dinâmica interna que – felizmente – funciona como um oásis no meio desse deserto de relações truncadas, conflitos étnicos e fronteiras fechadas que é o mundo em que vivemos.
Lembro de uma frase que escutei de Violeta Luna, no mês de julho, em Guanajuato, México: “no mundo globalizado, as fronteiras se escancaram para os produtos e se fecham para as pessoas”. Então eu me dou conta que dentro do Projeto Magdalena as fronteiras estão escancaradas para as pessoas, que criamos ali um ambiente de vínculos (e oportunidades de troca) que raramente encontramos em outros lugares. Se não houvesse mais nenhum motivo, esse já seria suficiente para lutarmos com todas nossas forças para sua continuidade, para que ele possa, sim, completar 50 anos em plena atividade. Mas há muito mais razões...


Marisa Naspolini é atriz, diretora, professora e produtora teatral. É graduada em jornalismo, analista de movimento pelo Laban/Bartenieff Institute de Nova York, mestre e doutoranda em teatro. Como atriz, diretora e/ou preparadora corporal, atuou em mais de 30 espetáculos em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e no exterior (França, Itália, Canadá e Portugal). Foi professora no Departamento de Artes Cênicas do CEART-UDESC por dez anos. Mantém a Áprika Cooperativa de Arte, que desenvolve projetos em diversos segmentos artísticos. Criou e coordena em Florianópolis o Vértice Brasil – encontro e festival internacional de teatro feito por mulheres, ligado ao Projeto Magdalena, rede internacional de mulheres de teatro presente em mais de 50 países. Integra a equipe do BA-O-BAH – estúdios de autocriação, que começou suas atividades este ano. Assina uma coluna semanal no Diário Catarinense.