Enraizar: Criar raízes, prender-se pela raiz, arraigar.
Acredito que esse verbo é o melhor para definir um evento chamado SOLOS FÉRTEIS em Brasília, não apenas pela sugestão do seu próprio nome, mas pela mítica envolvida nas oficinas, demonstrações de trabalhos e nos próprios espetáculos. Desta vez já imaginava o que poderia encontrar num festival de teatro feito por mulheres, mas como não pode deixar de ser, cada encontro foi surpreendente e os reencontros preciosos.
E foi o que mais encontramos, corações abertos da equipe de produção para nos receber com todo carinho possível, com todo amor necessário para se promover um festival deste tamanho e desta importância, e o mínimo que podemos fazer é agradecer e parabenizar Luciana Martuchelli e toda sua equipe por serem só coração com todas nós. Esse mesmo coração aberto foi encontrado também nas participantes como um todo, nos momentos de descontração durante as refeições e translado de um lugar para o outro, os cafés e as conversas, as fotos e filmagens, nas descobertas de afinidades e até nas possíveis parcerias para projetos futuros e possíveis reencontros em outros eventos do Magdalena’s Project.
Em qualquer tamanho do evento e de proposta de discussão, toda oficina sempre é uma troca importante de experiências e impressões, mas acredito que, para todas as participantes assim como acontece comigo, as escolhas sempre caem perfeitamente bem em relação às nossas necessidades do momento, foi o que senti com Natalia Marcet (Argentina) na oficina Meu corpo-meu lar. Para ser, tem que estar. Dada a minha dificuldade particular em trabalhar com corpo e com as lembranças, me senti completamente à vontade justamente pelo cuidado e carinho dela com as pessoas envolvidas naquela troca de experiência, pois se o tema era memória, as gavetas da lembrança não poderiam ser remexidas, reviradas inadvertidamente, elas teriam que ser abertas com todo respeito possível. E depois de assistir seu espetáculo Gordas, fica muito mais claro que somos todas mulheres de carne, osso, conflitos e desejos.
Essa mesma carne, osso, conflitos e desejos também ficaram claros em todos os outros trabalhos apresentados, a vontade de expor, de falar de assuntos muito íntimos e delicados, ou de dividir com o público suas impressões sobre temas polêmicos e políticos. Além, claro, de ver atrizes experientes como Ana Woolf e Julia Varley compartilhando suas técnicas e dificuldades sobre o desenvolvimento de seus trabalhos, nos fazendo ver o quanto é possível também sermos mulheres possíveis, como podemos nos perceber como atrizes, diretoras, dramaturgas, dançarinas e performers, e como o fato de sermos mulheres que trabalham com teatro impactam nossa sociedade.
Consciente ou inconsciente, minha leitura desse ACONTECIMENTO foi um pouco o retorno às nossas origens ancestrais. A relação do feminino com a Terra, com tê maiúsculo mesmo, no sentido de grande-mãe sempre cultuada nos povos antigos, e que, foi se perdendo um pouco com o passar do tempo, me pareceu tão presente e tão forte em todas as nossas atividades, que não sei como explicar, talvez a lua cheia tenha sido responsável por isso. Independente de cor, credo, origem, orientação sexual, postura política e particularidades em geral, reencontrar-se talvez seja a tendência dos nossos projetos tanto profissionais como pessoais. Um olhar voltado para si, mas sem esquecer do outro, um olhar feminino sobre o outro.
Os pés que saltavam eram os mesmos pés que dançavam o frevo, que se enraizavam nas oficinas, que fluíam levemente entre os espaços nas demonstrações, descalços, com meias, em sapatos diferentes ou nos tênis e saltos altos das participantes, esses pés eram os mesmo pés que bateram no solo do teatro da UnB, tremendo o palco e a arquibancada num ritual de comunhão entre histórias reais e a “ilusão” produzida pelo teatro, além, é claro, da celebração de um encontro único de almas afins.
Daniela Beny
Maceió / AL
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